A Torre da Moeda de Chumbo

Tudo parecia ter sido um simples devaneio naquela segunda à noite, mas Boris sabia que nesse mundo as visões, por mais improváveis que possam ser, nunca podem ser deixada de lado, sempre há algo importante. De qualquer maneira, ter conversado com seu avô uma última vez, mesmo que de maneira ilusória, havia lhe esclarecido muitas coisas.
Era terça de manhã, por volta das 7h, Boris ainda se sentia cansado de todos os acontecimentos do dia anterior, principalmente do acidente, mas estava de pé, logo os novos alunos de teatro chegariam para a aula das 8h, então ele foi pra biblioteca comum do Teatro pegar alguns papeis para distribuir entre os alunos, exercícios de representação. Ele entrou, fechou a porta, coisa que normalmente não faz, e começou a mexer nas gavetas de sua mesa, quando foi interrompido por três batidas na porta.

Boris: Entre. – Falou Boris sem desviar sua atenção do papeis que procurava, quando novamente escuta três batidas na porta.

Boris: Já disse para entrar, a porta está aberta…. – Boris vira-e e vê que havia fechado a porta, então com os papeis na mão vai em direção a grande porta dupla da biblioteca e a abre.

Ao abrir a porta da biblioteca Boris não vê o corredor a que está acostumado, muito menos quem esta batendo na porta, no lugar ele vê um campo de rosas enegrecidas, definhando como se nunca houvessem visto a luz do sol, e no meio do campo uma velha torre, aparentemente de algum tipo de metal, mas completamente enferrujada e com os vitrais quebrados.
Instantaneamente Boris se lembra dessa torre, e não havia como se esquecer, afinal, a vira durante 11 anos de sua vida. Era a mesma que torre que viu durante todos os anos de seu coma, só que agora ela estava caindo, algo estava acontecendo.
Boris lembrou ainda que durante todos os anos do coma, a torre não fora a única coisa que viu, havia um homem, um velho na verdade, que vivia na torre a muitas décadas atrás de algum mistério, mas Boris não conseguiu ver quem era o homem, pois quando chegou à porta de seu quarto e a abriu, Boris acordou do coma.
Dessa vez seria diferente, o velho estava parado em frente a porta da torre, olhando na direção de Boris, como se se aguarda sua vinda há muito tempo, tanto tempo que a torre estava caindo. Então Boris começou a se aproximar da torre.
Boris sempre achou que o velho que vivia na torre era seu avô, Avgustin, mas quando começou a ser aproximar percebeu que a resposta não era tão obvia assim. O velho aparentava seus 80 anos, com um chapéu russo preto, e o que parecia ter sido um terno, mas possuía feições não muito familiares ao dramaturgo russo.

Boris: Quem é você?

Velho: Não me reconhece Boris?

Boris: Reconheço-o apenas por que você foi a pessoa que vi durante todos os anos em que estive nesse reino, mas não, não sei que você é.

Velho: Realmente, eu não esperava que me reconhece-se, a última vez que nos vimos era muito mais jovem, mas você dormiu, dormiu profundamente durante muitos anos e não me viu envelhecer, cinco anos foram necessários para que eu ficasse dessa maneira, não fisicamente, mas minha alma, essa sim envelheceu e ficou fraca, até que eu morri antes de ver você voltar. – Então o homem ergue a cabeça e retira o chapéu, revelando profundos olhos azuis iguais o de Boris.

Boris: Pai… Era você nessa torre desde o inicio?

Ivan: Sim, essa foi minha prisão e minha salvação durante muitos anos, o tempo aqui passa diferente, mas eu sempre soube que um dia você chegaria para me salvar.

Boris: Eu o vi aqui quando estava em coma, vi você saindo da torre e escrevendo seu nome na parede, mas quando me aproximei vi que somente o nome do avô Avgustin estava escrito, por isso achei que era ele aqui na torre.

Ivan: Não, eu apenas fingi escrever meu nome na parede para que você assim o fizesse em seguida, e entrei na torre para que você não percebe-se que era eu.

Ivan: Apenas um poderia escrever o nome na torre, e eu preferi deixar essa benção para você, pois somente assim você conseguiria acordar do coma.

Boris: Você trocou sua vida pela minha… e continua preso na torre até hoje?

Ivan: Quase isso. Eu troquei meu despertar pelo seu, mas preso não é bem a palavra para o que estou fazendo aqui. Eu estou perdido, todos os caminhos que tomo me trazem de volta para cá, há muitos anos venho tentando achar meu caminho, mas eu não consigo.

Boris: E a mãe, não esta aqui com você?

Ivan: Não, o caminho dela foi diferente, quando sua mãe morreu ela foi levada diretamente para os Campos Elísios, você sabe, ela sempre teve uma alma generosa.

Boris: E desde então você tenta chegar até lá também.

Ivan: Exatamente filho, mas eu não conheço o caminho, apenas aqueles que trilham o caminho da Torre da Moeda de Chumbo, erguida em Estígia, o Reino das Criptas, conhecem os caminhos do mundo dos mortos e podem andar com segurança.

Ivan: Quando abri mão de escrever meu nome da torre para que você escreve-se eu sabia que um dia isso iria me salvar também, de alguma maneira.

Boris: E você esteve certo o tempo todo, eu despertei na Senda da Moeda, sou um Moroi, e conheço os caminhos desse mundo, não todos, mas os mais importantes sim. Vamos, vou tirá-lo dessa torre.

Nesse momento Ivan abre um enorme sorriso, que a muito não conseguia expressar, e começa a caminhar ao lado do filho pelo caminho de terra entre as rosas mortas do campo.
Boris e Ivan caminham lado a lado por muitos quilômetros, mas o cansaço não existe no mundo dos mortos, e eles continuavam, até que o campo de rosas terminou e logo a frente um gigantesco rio os impedia de passar.

Ivan: Eu já vim até aqui antes, não tem como atravessar o rio.

Boris: Não se preocupe pai, logo ele chegara.

Após alguns instantes de espera, Ivan e Boris avistam ao longe um barco a remo se aproximando e uma figura cadavérica o guiava através de um remo em forma de foice.

Ivan: O Barqueiro, já havia ouvido falar dele, mas ele nunca veio me buscar as vezes que vim até essa margem.

Caronte: Eu nunca venho até essa margem, esse não é o caminho dos que morrem. Só vim até aqui dessa vez pois fui chamado por um dos filhos do Estíge. – Fala o barqueiro virando seu olhar para Boris.

Boris: Obrigado por atender meu chamado, aqui está o pagamento pela travessia. – Boris retira duas moedas de seu bolso e coloca na mão do barqueiro.

Caronte: Você não poderá ficar muito tempo filho do Estíge, a menos que queira ser parte permanente do mundo dos mortos.

Boris: Eu sei disso, só vou acompanhar meu pai para os Campos Elísios.

Caronte: Está certo, mas eu não poderei ficar esperando você voltar, outras almas me chamam.

Então Boris e Ivan sobem na embarcação, e a viagem pelo Rio Estíge começa, o tempo não é muito relevante nesse plano, mas parecia que estava a dias viajando quando finalmente avistam a outra margem.

Ao atracar no píer Boris e Ivan descem do barco, que começa a se afastar lentamente da margem.

Ivan: Como você vai voltar filho?

Boris: Já pensei em algo, fique sossegado. – Fala Boris sem nem ter idéia de como iria voltar.

Ambos voltam a andar pelo mundo dos mortos, mas aqui, diferente do outro lado, existem outras almas caminhando. Muitas não percebem a presença de Boris, um vivo, e claro, um Mago, no mundo dos mortos, mas vários outros, talvez um pouco mais fortes, capazes de sentir a ressonância de Boris, começar a segui-lo quase que involuntariamente.

Ivan: Porque eles estão nos seguindo Boris?

Boris: Eles acham que estou aqui para guiá-los. Não se preocupe, logo eles voltam para seus caminhos.

E assim aconteceu, cada alma seguia Boris por alguns momentos e depois retornava ao seu próprio caminho, até que quando Boris e Ivan passaram ao lado do poço do Tártaro nenhuma alma mais os seguiu.

Boris: Essa é a entrada para o Tártaro, onde ficam as almas daqueles que foram realmente maus durante a vida. Vamos, logo chegaremos.

Ivan continua seguindo o filho, sempre olhando em volta, uma mistura de fascínio e horror, mas ele confiava no filho. Continuaram andando muitas horas, ao longe ele avistou uma ilha, que Boris disse ser a Ilha dos Abençoados, local da morada de heróis.

Boris: Chegamos.

Sarah estava parada em frente ao portão. E assim que avistou o marido e o filho correu eu direção a eles.

Sarah: Eu sabia que vocês chegariam.

Ivan: Minha querida, porque você não entrou? Ficou aqui fora todo esse tempo, sozinha.

Sarah: Se eu entrasse sem você, seria quase impossível nos vermos novamente, então resolvi esperar do lado de fora.

Boris chega mais perto dos pais, agora juntos, e entrega na mão de cada um deles uma moeda.

Boris: Esse é o pagamento para que os portões se abram. Está na hora, eu não posso mais ficar aqui, e você tem que seguir em frente. – Quando termina de falar, Ivan e Sarah abraçam o filho e começam a caminhar até o portão.

O portão se fecha, agora com os pais de Boris dentro dos Campos Elísios, e então Boris, antes mesmo de se virar para começar a fazer o caminho de volta, se vê parado na estrada de terra que leva até a torre em que seu pai estava lhe esperando.
O campo não está mais morrendo, agora as rosas estão todas vermelhas, todas cercando a torre em um gigantesco jardim, e a torre, antes enferrujada, mostra sua verdadeira face. Uma torre enorme feita de ouro, vitrais adornados com figuras míticas de várias culturas, desde grega à cultura eslava. Essa era a torre de Boris. A torre de um Moroi.

- Maestro?… Maestro?… – Escuta Boris sem saber quem estava falando com ele.

- Está tudo bem? Os alunos chegaram e já estão no palco te esperando.

Boris abre os olhos e vê que este parado na porta da biblioteca, segurando-a aberta e em sua frente esta o carpinteiro José olhando-o com um ar de duvida.

José: Está tudo bem Boris?

Boris: Sim, estava perdido em alguns pensamentos. Há quanto tempo você esta ai.

José: Acabei de bater na porta e você a abriu para mim, só que ficou parado alguns segundos.

Boris: Está bem, bom, vamos lá, preciso começar as aulas. – Fala Boris enquanto coloca os papeis que havia pegado embaixo do braço e começa a ir em direção ao palco.

A Torre da Moeda de Chumbo

Nova Era Jones