Herr Docter e Boris

Boris havia conseguido uma grande influência na cidade junto às outras Ordens. A Escadaria, mais forte na cidade devido aos últimos acontecimentos, andara tentando entrar em contato.
As peças dirigidas pelo Moroi estavam sendo muito bem vistas na cidade, tanto pelo público humano, quanto pelo público desperto.

Boris usava suas peças como meio de atingir as pessoas, não atingir apenas de uma maneira sentimental, mas sim de uma maneira inconsciente, através das parábolas e das ressonâncias dentro de suas histórias, influenciando a mente das pessoas certas, tentando mostrar, sutilmente algo que já deveriam estar lá, mas a maioria não estaria preparada para elas.

O Teatro de Boris era repleto de magia, os cenários principalmente. Ninguém sabia como eram feitos, pois apenas Boris e um velho carpinteiro mexiam neles, ele não permitia que mais ninguém o ajuda-se. Eram peças extremamente trabalhadas, e exalavam uma ressonância tão sutil que apenas os magos mais atentos a sentiam.

Boris pertence ao Mysterium, e usa sua arte como meio de adquirir conhecimento, muitos membros do próprio Mysterium não entendem os métodos de Boris.

Ele conhecia a maioria dos membros das outras ordens, e normalmente trocavam favores. Boris já havia feito peças para Escadaria, para os Guardiões e para o próprio Mysterium.

Todas as peças de Boris tinham um motivo além da arte. Cada tipo de peça tinha a capacidade de atrair certos tipos de público. Desse modo, Boris conseguia juntar no mesmo lugar pessoas capazes de “receber” as informações que ele queria transmitir para os humanos. A arte vai além da arte, é uma manifestação da magia.

Outras ordens já pediram para Boris fazer a mesma coisa para eles, por meio das peças, e, em troca, eles davam a Boris alguns “conhecimentos” que apenas algumas pessoas tinham acesso.

A última peça fora feita para Escadaria de Prata, pois eles precisavam encontra uma pessoa, prestes a despertar, à qual não conseguiram encontrar de nenhuma outra maneira.

Podemos dizer que as peças são um meio de “angariar” pessoas prestes a despertar, ou com capacidade para tal.

Mas claro, como todo membro do Mysterium, Boris não soltava todo o conhecimento que adquiria, e sim apenas aquilo que achava necessário.

O Mysterium já havia questionado Boris sobre seus métodos, mas logo pararam com isso, assim que perceberam que Boris conseguia mais informações dessa maneira do que os outros, pois as outras ordens, precisando de sua ajuda, lhe forneciam tais conhecimentos.

Certa noite, Boris estava em seu Teatro, organizando alguns cenários, quando seu Mentor, Herr Docter, entra no salão principal:

Herr Docter: Boris, meu amigo, fiquei sabendo que a última peça foi um sucesso, a Escadaria adorou sua ajuda.

Boris: Eu sei, e eu gostei mais ainda das coisas que descobri.

Herr Docter: Boris, você não acha que ajudar as outras ordens assim pode nos trazer problemas? Afinal, você os ajudou a levar um deles para a Escadaria, logo você estará fazendo isso até para os irresponsáveis do Concilio.

Boris: Docter, nós já conversamos sobre isso, eu não estou aqui para julgar as crenças dos outros magos. Acredito que cada um possui o seu caminho certo, e o seu caminho errado. Não sou eu que vou forçá-los a mudar, ou tentar impor o que eu acredito.

Você sabe o que eu faço, eu apenas mostro algumas verdades para as pessoas, mas eu não poderia mostrar apenas as minhas verdades, pois elas são minhas, e somente eu as entendo.

Cada pessoa possui a sua, e eu não sou capaz de mostrar todas para elas, preciso pegar as verdades dos outros magos e mostrar para os homens, cada um irá se identificar melhor com alguma delas. Isso já é um grande passo.

Não se trata de liberar conhecimento, e sim de manipulá-lo, adquiri-lo e repassá-lo da maneira inconsciente, e que melhor nos convém.

Herr Docter: É, eu já ouvi isso antes, eu entendo, mas não totalmente.

Boris: Ontem fui convidado para entrar para o Concílio, mas novamente neguei. Eles não entendem, uma vez tentei explicar o que faço para um deles, e ele achou que deveria fazer igual. Imprudente, ele não sabia como abrir essas informações, achou que era simplesmente chegar e “jogar na cara” das pessoas, sinto pena da garota que enlouqueceu ao ver as suas tão aclamadas “verdades”.

Herr Docter: Já é o terceiro que vem atrás de você, ele não desistem não é, vivem querendo que outros magos abandonem sua filosofia a fim de aderir a sua imprudente empreitada.

Boris: Pois é, eu já acostumei com eles, não me incomodam mais, vivem querendo se intrometer em meus “negócios”, achando que sou suscetível a suas “visões de liberdade”, tolos, não entendem que nem tudo deve ser feito dessa maneira. Se eles não fossem tão cegos com isso tudo, conseguiriam se organizar melhor.

Boris: Uma novidade, Docter, estou quase terminando de restaurar a peça de meu avô, você sabe, aquele que sonhei durante tanto tempo. Tenho até um pouco de medo de colocá-la em cartaz no teatro, afinal, eu mesmo nunca a vi “ao vivo”.

Herr Docter: Não se preocupe, Boris, você saberá a hora.
Enquanto isso, tenha cuidado com esse magos do concílio, algo me diz que eles ainda voltaram atrás de você, e quando eles perceberem que você não vai se juntar à eles, não duvido nada que mudem de opinião sobre o que você faz aqui, afinal, mudar de opinião é normal entre eles – nesse momento Docter para e solta um leve risada sarcástica.

Boris: Não se preocupe, estarei atento quando eles voltarem.
Agora dê-me licença caro amigo, tenho que terminar de arrumar alguns cenários para hoje a noite.

Herr Docter: Você e seus mistérios… Maestro. Continue assim. Até logo.

Herr Docter vira-se e sai do Teatro, deixando Boris a sós novamente em frente a um amontoado de panos e pedaços de madeira. Aquela noite seria a estréia de uma apresentação de balé encomendada pela Secretaria de Cultura de São Paulo, e Boris estava trabalhando no cenário a alguns dias.

Herr Docter e Boris

Nova Era Jones